Arthur W. Pink
A MORTE DO SENHOR JESUS CRISTO é um assunto de abundante interesse para o Cristianismo. Dela depende a nossa felicidade eterna.
Inicialmente queremos mostrar duas características da morte de Cristo:
1) Ela foi preternatural
Por meio disso queremos dizer que ela foi marcada e determinada para ele de antemão. Ele era o Cordeiro morto antes da fundação do mundo (Ap 13.8)
“e adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, aqueles cujos nomes não foram escritos no Livro da Vida do Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo”.
→ Antes que Adão fosse criado, a Queda foi antecipada.
→ Antes de o pecado entrar no mundo, a salvação dele havia sido planejada por Deus.
Nos eternos conselhos da Deidade, foi ordenado de antemão que haveria:
Ø um Salvador para os pecadores,
Ø um Salvador que sofreria, o justo pelos injustos – I Pe 3.18,
Ø um Salvador que morreria para que pudéssemos viver.
E “porque não havia nenhum outro suficientemente bom para pagar o preço do pecado”, o Unigênito do Pai se ofereceu como o resgate.
“Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45).
Não tivesse sido Cristo, no conceito de Deus, o Cordeiro morto desde antes da fundação do mundo, toda pessoa pecadora nos tempos do Antigo Testamento teria sido lançada no abismo no momento em que ela pecasse!
2) A morte de Cristo foi sobrenatural
Por isso queremos dizer que ela foi diferente de qualquer outra morte. Em todas as coisas ele tem a preeminência.
v Seu nascimento foi diferente de todos os outros nascimentos.
v Sua vida foi diferente de todas as outras vidas.
v E sua morte foi diferente de todas as outras mortes.
Isso foi claramente anunciado em sua própria declaração sobre o assunto: “Por isso, o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la. Este mandato recebi de meu Pai.
Observe que nosso Senhor “deu a sua vida”. Ele não estava impotente nas mãos de seus inimigos, como se vê claramente em João 18, onde temos o registro de sua prisão.
Um bando de oficiais da parte dos principais sacerdotes e dos fariseus, guiados por Judas, o procuraram no Getsêmani.
ª Adiantando-se para encontrá-los, o Senhor Jesus pergunta (Jo 18.4): “... A quem buscais?”.
ª A resposta foi (v.5): “... Jesus de Nazaré...”
ª Diante disso nosso Senhor expressou o inefável título de deidade, aquele pelo qual Deus se revelou nos tempos antigos a Moisés na sarça ardente dizendo (Ex 3.14): “... EU SOU...”
O efeito foi impressionante. Esses oficiais ficaram apavorados. Eles estavam na presença da deidade encarnada, e tiveram uma breve consciência da majestade divina.
Portanto, fica claro que se fosse do agrado de nosso bendito Salvador Ele poderia ter se afastado calmamente, deixando aqueles que vieram lhe prender prostrados no chão!
Ao invés disso, ele se entregou nas mãos deles e foi levado (não forçado, obrigado, mas) como um cordeiro ao matadouro.
Julgado e condenado, Jesus foi conduzido ao Calvário. Do alto da cruz, despresado pela maioria dos discipulos, padecendo das 9:00h da manhã até às 3:00h da tarde, nosso Salvador Jesus Cristo, no estado de humilhação articula suas últimas palavras.
1. A PALAVRA DE PERDÃO
“E dizia Jesus: Pai perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34).
Aquele por quem o mundo foi feito veio ao mundo, mas o mundo não o conheceu. O Senhor da glória tabernaculou entre os homens, mas não foi desejado.
“O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.10,11,14) .
Os olhos que o pecado tinha cegado não viram nele nenhuma beleza alguma pela qual ele pudesse ser desejado – Is 53.2 – “Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse”.
Em seu nascimento não havia nenhum quarto na hospedaria, o que prenunciava o tratamento que receberia das mãos dos homens.
Pouco tempo após seu nascimento, Herodes procurou matá-lo, e isso sugeria a hostilidade que sua pessoa evocava e predizia a cruz como o clímax da inimizade do homem.
Repetidas vezes seus inimigos tentaram sua destruição. E agora os abomináveis desejos deles fora-lhes concedidos. O Filho de Deus tinha se rendido nas mãos deles.
Um julgamento fajuto havia acontecido e, embora seus juízes não tenham encontrado nenhuma falta nele, todavia, eles se rederam ao clamor insistente daqueles que o odiavam à medida que eles repetidamente clamavam: “Crucifica-o”.
→ Uma ação desumana tinha sido feita.
→ Nenhuma morte ordinária satisfaria seus inimigos implacáveis.
→ Foi decidida uma morte de sofrimento e vergonha intensa.
→ Uma cruz tinha sido assegurada: o Salvador seria pregado nela.
→ E ali ele foi pendurado em silêncio.
Mas nesse instante seus lábios pálidos são vistos se mexendo ele está clamando por piedade? Não.
O que então? Ele está pronunciando maldição sobre aqueles que estão lhe crucificando? Não.
Ele está orando, orando pelos seus inimigos – “E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23.34).
Essa primeira das sete palavras na cruz do nosso Senhor o apresenta em atitude de oração.
Quão significante! Quão instrutivo! Seu ministério público tinha sido aberto com oração (Lucas 3.21-23), e aqui vemos ele sendo fechado com oração. Certamente ele nos deixou um exemplo!
O que me chama atenção aqui é a eficácia da Oração de Cristo. Essa intercessão na cruz por seus inimigos recebeu uma resposta marcante e bem definida.
A resposta é vista na conversão das três mil almas no dia de Pentecoste (At 2.41). Essa conclusão nasce de Atos 3.17, onde o apostolo Pedro diz: “E agora, irmãos, eu sei que o fizestes por ignorância, como também as vossas autoridades”.
Deve ser notado que Pedro usa a palavra “ignorância”, que corresponde ao “não sabem o que fazem” do nosso Senhor.
Eis aí a explicação divina dos 3.000 conversos com um simples sermão. Não foi a eloqüência de Pedro a causa, mas a oração do Senhor.
Meus irmãos, Cristo orou por você e por mim antes de crermos nele. Observem (Jo 17.20) – “Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que vierem a crer em mim, por intermédio da sua palavra”.
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