terça-feira, 2 de maio de 2017

O Último Sermão – I Tm 4.15


O nosso último dia irá chegar. Se você soubesse exatamente quando seria seu último dia como:

@ Avô... Pai... Filho... Marido... Amigo... Professor... Membro da igreja visível; Diácono; Presbítero; Pastor. O que você ensinaria? 
@ O que você ensinaria se soubesse que teria a última oportunidade? 

Em 24 de agosto de 1662, dois mil pregadores puritanos foram expulsos de seus púlpitos, e receberam a ordem de não mais pregarem em público. O Ato de Uniformidade, baixado pelo parlamento inglês, conhecido pelos evangélicos como a Grande Ejeção evacuação, pairava por sobre a Inglaterra como uma nuvem espessa.

Muitos líderes eclesiásticos da Igreja Anglicana, a religião oficial, estavam forçando os puritanos a cessarem suas pregações ou a se moldarem à adoração litúrgica decretada por lei.

®    Diante disso, muitos ministros preferiam o silêncio à transigência “desobediência”.
®    Optaram por parar de pregar a se submeteram às leis litúrgicas da Inglaterra.

Com olhos marejados de lágrimas, milhares de crentes humildes ouviram seu último sermão no domingo imediatamente anterior à data em que o Ato de Uniformidade se tornaria lei. E, naquele último domingo de liberdade, os ministros puritanos provavelmente pregaram os seus melhores sermões.

O estudo que passo a compartilhar com a igreja, de modo um tanto abreviado, foi proferido por Thomas Watson a seu pequeno rebanho. Assim, dizia ele – Antes que eu vá, devo oferecer alguns conselhos e orientações para vossas almas. Eis as vinte instruções que tenho a dar a cada um de vós, para as qua­­is desejo a mais especial atenção:

1) Antes de tudo, observa tuas horas constantes de oração a Deus, diaria­­mente.

O Salmo 4.3 diz assim: “Sabei, porém, que o SENHOR distingue para si o piedoso; o SENHOR me ouve quando eu clamo por ele”.
O homem piedoso é homem “separado” não apenas porque Deus o separou por eleição, mas também porque ele mesmo se separa por devoção. Ele inicia o dia com Deus, e pela manhã O visita antes de fazer qualquer outra coisa. Ele adentra ao céu diariamente, em oração. O homem piedoso lê as Escrituras, pois elas são, ao mesmo tempo, um espelho que mostra as nossas manchas e um lavatório onde podemos branquear essas máculas.

2) Colecione bons livros em casa.

Os livros de qualidade são como fontes que contêm a água da vida, com a qual poderás refrigerar-te.
Quando descobrires um arrepio de frio em tua alma, lê esses livros, onde poderás ficar familiarizado com aquelas verdades que aquecem e afetam o coração.

3) Tem cuidado com as más companhias.

Evita qualquer familiaridade desnecessária com os pecadores. Ninguém pode apanhar a saúde de outra pessoa; mas pode apanhar doenças. E a doença do pecado é altamente transmissível. Visto não podermos melhorar os outros, ao menos tenhamos o cuidado de que eles não nos façam piores. No Salmo (106.34-41), está escrito assim acerca do povo de Israel:

34  Não exterminaram os povos, como o SENHOR lhes ordenara.
35  Antes, se mesclaram com as nações e lhes aprenderam as obras;
36  deram culto a seus ídolos, os quais se lhes converteram em laço;
37  pois imolaram seus filhos e suas filhas aos demônios
38  e derramaram sangue inocente, o sangue de seus filhos e filhas, que sacrificaram aos ídolos de Canaã; e a terra foi contaminada com sangue.
39  Assim se contaminaram com as suas obras e se prostituíram nos seus feitos.
40  Acendeu-se, por isso, a ira do SENHOR contra o seu povo, e ele abominou a sua própria herança
41  e os entregou ao poder das nações; sobre eles dominaram os que os odiavam.

As más companhias são as redes de arrastão do diabo, com as quais arrasta milhões de pessoas para o inferno. Quantas famílias e quantas almas têm sido arruinadas pelas más companhias!

4) Cuidado com o que ouves.

Existem certas pessoas que, com seus modos sutis, aprendem a arte de misturar o erro com a verdade e de oferecer veneno em uma taça de ouro. Nosso Salvador, Jesus Cristo, acon­selhou-nos dizendo: “Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresen­tam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores” (Mt 7.15). Sê como aqueles bereanos que examinavam as Escrituras, para verificar se, de fato, as coisas eram como lhes foram anunciadas (At 17.11). Aos crentes é necessário um ouvido discernidor e uma língua crítica, que possam distinguir entre a verdade e o erro e ver a diferença entre o banquete oferecido por Deus e a migalha colocada à sua frente pelo diabo.

5) Segue a sinceridade.

®    Seja o que você parece ser.
®     Não seja como os remadores, que olham para um lado e remam para outro.
®    Não olhe para o céu, com sua profissão de fé; para então, remar em direção ao inferno, com tuas práticas.
®    Não finja ter o amor de Deus, ao mesmo tempo em que ama o pecado.
®    A piedade fingida é uma dupla iniquidade.
®    Que seu coração seja reto perante Deus.

Quanto mais simples é o diamante, tanto mais precioso ele é; e quanto mais puro é o coração, maior é o valor que Deus dá à sua joia. No Salmo 51.6, aprendemos que o Senhor quer de cada um de nós um coração sincero.

6) Nunca esqueças da prática do auto-exame.

Estabeleça um tribunal em tua própria alma. Tenha receio tanto de uma santidade mascarada quan­to de ir para um céu pintado por ti mesmo. Deixa que a Palavra seja um espelho, diante do qual poderás julgar a aparência de tua alma. Por falta de autocrítica, muitos vivem conhecidos pelos outros, mas morrem desconhecidos por si mesmos. No Salmo 77.6 está escrito: “De noite indago o meu íntimo...” Veja que o salmista não perde tempo, ele gasta suas noites em pensamentos profundos, meditando e fazendo perguntas.

7) Mantém vigilância quanto à tua vida espiritual.

O coração é um instrumento sutil, que gosta de sorver a vaidade; e, se não usarmos de cautela, atrai-nos, como uma isca, para o pecado. Por isso, o crente precisa estar constantemente alerta. Nosso coração se assemelha a uma “pessoa suspeita”. Fica de olho nele, observa o teu coração continuamente, pois é um traidor em teu próprio peito. Todos os dias nós devemos montar guarda e vigiar. Se dormirmos tranquilamente, se vacilarmos, aí está a oportunidade para as tentações diabólicas.

8) O povo de Deus deve reunir-se com frequência.

As ovelhas de Cristo devem andar unidas. Assim, um crente ajudará a aquecer ao outro. Um conselho pode efetuar tanto bem quanto uma pregação. O apóstolo Paulo diz assim em Rm 15.1 – “Ora, nós que somos fortes devemos suportar as debilidades dos fracos e não agradar-nos a nós mesmos”.

Quando um crente profere a palavra certa no tempo oportuno, derrama sobre o outro o óleo santo que faz brilhar com maior fulgor a lâmpada do mais fraco. Os biólogos já notaram que há certa simpatia entre as plantas. Algumas produzem melhor quando crescem perto de outras plantas. Semelhantemente, esta é a verdade no terreno espiritual. Os santos são como árvores de santidade. Desenvolve melhor a piedade quando crescem juntos.

9) Que o teu coração seja elevado acima do mundo.

“Pensai nas coisas lá do alto” (Cl 3.2). Podemos ver o reflexo da lua na superfície da água, mas ela mesma está acima, no firmamento. Assim também, ainda que o crente ande aqui em baixo, o seu coração deve estar fixado nas glórias do alto. Aqueles cujos corações se elevam acima das coisas deste mundo não ficam aprisionados com os vexames e desassossegos que outros experimentam, mas, antes, vivem plenos de alegria e de contentamento.

10) Consola-te com as promessas de Deus.

®    As promessas são grandes suportes para a fé.
®    As promessas de Deus são quais balsas flutuantes que nos impedem de afundar, quando entramos nas águas da aflição.
®    As promessas são doces cachos de uvas produzidos por Cristo, a videira verdadeira.


11) Não seja ocioso, mas trabalha para ganhar o teu sustento.

Estou certo de que o mesmo Deus que disse: “Lembra-te do dia de sábado, para o santificar” (Êx 20.8), também disse: “Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra” (Êx 20.9). Deus jamais apoiou qualquer ociosidade.

Paulo observou: “Porque, quando ainda convosco, vos ordenamos isto: se alguém não quer trabalhar, também não coma. Pois, de fato, estamos informados de que, entre vós, há pessoas que andam desordenadamente, não trabalhando; antes, se intrometem na vida alheia. A elas, porém, determinamos e exortamos, no Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando tranquilamente, comam o seu próprio pão” (II Ts 3.10-12).

12) Junte a primeira tábua da Lei à segunda, isto é, piedade para com Deus e honestidade para com o próximo.

O apóstolo Paulo reúne essas duas ideias, em um só versículo: “Vivamos, no presente século... justa e piedosamente” (Tt 2.12). A justiça se refere à moralidade; a piedade diz respeito à santidade.
®    Alguns simulam ter fé, mas não têm obras – Tg 2.14,26
®    Outros têm obras, mas não têm fé.
®    Alguns se consideram zelosos para com Deus, mas não são justos em seus tratos.
®    Outros são justos no que fazem, mas não têm a menor fagulha de zelo para com Deus.

13) Em teu andar perante os outros, junte a simplicidade à prudência.

“Sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas” (Mt 10.16).
®    Devemos incluir a simplicidade em nossa sabedoria, pois doutro modo tal sabedoria não passará de astúcia...
®   E precisamos incluir sabedoria em nossa simplicidade, pois do contrário nossa inocência será apenas fraqueza.

F Convém que sejamos tão inofensivos como as pombas, para que não causemos danos aos outros...
F E que tenhamos a prudência das serpentes, a fim de que os outros não abusem de nós, nem nos manipulem.

14) Tenha mais medo do pecado que dos sofrimentos.

@ Sob o sofrimento, a alma pode manter-se tranquila.
@  Porém, quando um homem peca voluntariamente, perde toda a sua paz.

Aquele que comete um pecado para evitar o sofrimento, assemelha-se ao indivíduo que permite sua cabeça ser ferida, para evitar danos ao seu escudo e capacete.

15) Fuja da idolatria.

“Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (I Jo 5.21). A idolatria consiste numa imagem de ciúme que provoca a Deus. Guarda-te dos ídolos e tem cuidado com as superstições.

16) Não despreze a piedade por estar sendo ela perseguida.

Homens ímpios, quando instigados por Satanás, reprovam, maliciosamente, o caminho de Deus. A santidade é uma qualidade bela e gloriosa. Chegará o tempo quando os iníquos desejarão ver algo dessa santidade que agora desprezam, mas estarão tão removidos dela como agora estão longe de desejá-la.

17) Não dê valor ao pecado por estar atualmente na moda.

  Não julgue o pecado como coisa apreciável, só porque a maioria segue tal caminho.
  Será que consideramos a ofensividade de uma praga, só porque ela se torna tão generalizada e atinge a tantos?
   “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as” (Ef 5.11).

18) No que diz respeito à vida cristã, sirva a Deus com todas as tuas forças.

Deveríamos fazer por nosso Deus tudo quanto está no nosso alcance. Deveríamos servi-Lo com toda a nossa energia, posto que a sepultura está tão perto, e ali ninguém ora nem se arrepende. Nosso tempo é curto demais, pelo que também o nosso zelo de Deus deveria ser intenso. “Sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor” (Rm 12.11).

19) Enquanto você tiver vida, faça aos outros todo o bem que puder.

§  Labuta para ser útil às almas de teus semelhantes e para suprir as necessidades alheias.
§  Jesus Cristo foi uma bênção pública no mundo.
§  Ele saiu a fazer o bem.
Muitos vivem de modo tão infrutífero, que, na verdade, suas vidas dificilmente são dignas de uma oração, como também seu falecimento quase não merece uma lágrima.

20) Medite todos os dias sobre a eternidade.

Talvez em questão de poucos dias ou de poucas horas, haveremos de embarcar através do ocea­no da eternidade.

®     A eternidade é uma condição de desgraça eterna ou de felicidade eterna.
®    Separe um tempo a cada dia, para refletir a respeito da eternidade.

Os pensamentos profundos sobre a eterna condição da alma deveriam servir de meio capaz de promover a santidade.

Conclusão

Não devemos estimar os confortos deste mundo. Os prazeres oferecidos pelo mundo são muito agradáveis, porém passageiros, logo se dissipam. A ideia da eternidade deve ser o bastante para impedir-nos de ficar tristes em face das cruzes e sofrimentos neste mundo. Estando em Cristo aqui neste mundo, a aflição pode ser prolongada, mas não eterna. Nossos sofrimentos neste mundo não podem ser comparados com nosso eterno peso de glória.

Considerai o que vos tenho dito, e o Senhor vos dará entendimento acerca de tudo.
Autor: Thomas Watson

Por Rev. Gilvan de Oliveira Silva – IPBEC, 22/11/09. 

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